Himahimasei

O reizinho Dezembro

Marcadores: , ,
Geralmente subestimamos a literatura infantil, mas quando fui reler um dos meus livros favoritos da infância, esses dias, fiquei encantado. O trecho que vou publicar a seguir é apenas o primeiro capítulo do livro. Se você gostar, compre, ache numa biblioteca, sei lá.

Autor: Axel Hacke
Tradução: João Azenha Jr.

Já faz algum tempo que o gordo reizinho Dezembro II aparece de vez em quando na minha casa. Ele é do tamanho de um dedo indicador, e tão gordo que o seu minúsculo manto de veludo vermelho com uma gola encorpada de arminho branco já não abotoa na frente, tão grande é a sua barriga.

O rei simplesmente adora bala de goma. Só que não pode ser qualquer bala de goma. Tem que ser daquelas em forma de ursinho. Para comê-las, ele as segura com as duas mãos e mesmo assim quase não consegue levá-las à boca, pois um ursinho de goma é mais ou menos a metade do tamanho do reizinho. Ele crava os dentes na goma molinha do urso e arranca pedaços enormes. E enquanto faz isso, me pede a mesma coisa de todas as vezes:

- Me conte uma história do mundo de vocês.

Da primeira vez que ele me visitou, eu disse:

- Por aqui as pessoas nascem pequenas e depois vão crescendo, crescendo. Algumas chegam a ficar do tamanho de um jogador de basquete. No fim da vida, elas encolhem um pouco. E aí vem a morte e... acabou-se.

- Que coisa mais sem lógica - disse o reizinho, enquanto arrancava com uma dentada a pata direita do urso. - Por que vocês não nascem grandes e vão encolhendo, encolhendo, até desaparecerem simplesmente porque ficaram invisíveis?

- Acho que a Associação Nacional das Agências Funerárias deve ser contra isso - disse eu.

- Mas no mundo da gente é assim! - disse o rei - Meu pai, o rei Dezembro I, ficou tão pequenininho um dia que o seu camareiro não conseguiu encontrá-lo na cama pela manhã. E no mesmo dia eu fui coroado rei.

- Sim, mas como é possível alguém já nascer grande? - perguntei. - Um bebê tem de ficar dentro da barriga da mãe antes de nascer e ela não pode ser menor do que ele!

- Ficar dentro da barriga? - disse Dezembro. - Ha! Ha! Certa manhã eu acordei na minha cama e já fui trabalhar no escritório real. Simplesmente isso. Ficar dentro da barriga, pois sim! Que bobagem! A gente acorda um dia e a vida começa.

- E o que acontece antes de vocês irem parar nessa cama? - perguntei.

- Espere um pouco - disse o rei -, ... acho que... bem, um rei e uma rainha precisam... hã... como era mesmo? Ih, me esqueci! Sabe, já estou novo demais para me lembrar dessas coisas. Esqueci mesmo. Só sei que era gostoso... - Deu uma risadinha marota e mordeu mais um pedaço do ursinho.

- Aqui, quando uma criança vem ao mundo - disse eu -, ela não sabe nada de nada. Precisa aprender a comer, andar, ler e escrever. Os adultos têm de limpar o narizinho dela, e existe um monte de jogos educativos para ela aprender a ficar calma. São sempre as mãos de gente grande que a carregam por toda parte, viram a sua cabeça de um lado para o outro e endireitam o seu queixo.

O rei deu um arroto bem alto e uma gargalhada sacudiu sua barriga. Enquanto eu falava, ele já tinha comido a cabeça do ursinho de goma.

Olhou para mim, continuou mastigando devagar e disse:

- E daí?

- Bem, daí a pessoa começa a crescer - disse eu.

- E dói crescer? - perguntou.

- Não, porque é um crescimento bem lento. Se bem que algumas crianças chegam a crescer dois centímetros numa única noite. E se a gente colocar o ouvido num dos braços ou numa das pernas dela, dá pra ouvir os ossos rangerem.

- Com a gente é muito parecido, só que ao contrário - disse Dezembro. - Às vezes dá para a gente perceber que está encolhendo. Como aconteceu comigo há pouco tempo. De noite eu ainda consegui pôr minha xícara de chá em cima da mesa e na manhã seguinte tive de subir numa cadeira para poder pegá-la. - Então perguntou: - Você acha bonito crescer?

- Até hoje eu não sabia que havia outras possibilidades - disse eu.

- Agora já sabe - disse ele.

- Me conte mais - pedi. - O que vocês sabem quando nascem e o que aprendem depois?

- Sabemos quase tudo - disse o gordo reizinho. - A gente acorda, se vê deitado numa cama, levanta e já sabe escrever, fazer cálculos complicados, programar computadores, ir ao trabalho e sair para um almoço de negócios. Quanto menor a gente vai ficando, mais a gente vai esquecendo. No dia em que a gente desaprende a se comportar num almoço de negócios, a gente não precisa mais ir ao escritório, porque o pessoal não precisa mais de gente. Então é hora de ficar em casa e continuar se esquecendo de um monte de outras coisas. A cabeça vai se esvaziando e se enchendo de espaços. Os outros passam a fazer comida para a gente, e a gente pode sair para visitar os amigos. Ou então ficar olhando as sombras do jardim, imaginando que são fantasmas. Ou a gente pode ficar dando nome às nuvens. Ou então conversando com nosso ursinho de pelúcia. Ou ainda...

- Isso se os grandes não proibirem você de fazer o que quer! - exclamei.

- Os grandes não proíbem coisa nenhuma! - disse Dezembro II. - Quanto menor a gente fica, tanto mais é a gente que determina as coisas. E sabe por quê? Porque são os pequenos que têm a maior experiência de vida, hi! hi! E os grandes têm de responder a todas as nossas perguntas: "Por que a casa é quadrada? Por que o dado só tem seis números? Por que chove?". E nem bem a gente ouve a resposta, já pode esquecê-la. E, uma vez que são os pequenos que dão as cartas, existem escadas rolantes com degraus pequenos, e assentos de privada minúsculos para evitar que a gente caia lá dentro. As pessoas têm de se arranjar com essas coisas enquanto são grandes. É o único jeito.

Levantou-se com um movimento rápido e altivo, pôs o que restava do ursinho de goma no chão e tentou abotoar o manto. Mas não deu, de tão goooordo que era. Com um suspiro, sentou-se novamente.

- Quer dizer... - disse eu, recolocando o ursinho de goma na mão do rei - ... quer dizer que no país de vocês a infância fica no fim da vida?

- Dá pra imaginar o fim da vida como algo pelo que se espera ansiosamente? - disse o rei. Depois me olhou bem no fundo dos olhos e perguntou: - sabe o que eu acho?

- Não - disse eu.

- Acho que não está certo dizer que vocês crescem. Acho que tudo não passa de aparência.

- Como assim? - perguntei.

- Acho que vocês também começam a vida grandes - disse ele. - Se está certo tudo o que você está me contando... Bem, eu imagino o seguinte: no começo vocês têm um mundo de possibilidades e a cada diatiram de vocês algumas delas. Quando são pequenos, vocês têm uma grande imaginação, mas sabem muito pouco. E por saberem pouco, precisam imaginar quase tudo. Têm de imaginar, por exemplo, como a luz vai parar dentro do abajur, como a imagem vai parar dentro da televisão, além de imaginarem também, é claro, como deve ser a vida dos gnomos debaixo das raízes das árvores e como deve ser ficar na palma da mão de um gigante. Aí voc~es começam a crescer e os que são maiores do que vocês vão explicando como funciona um abajur, uma televisão... Depois vocês aprendem que não existem gnomos nem gigantes. A imaginação de vocês vai ficando cada vez menor, e o conhecimento de vocês cada vez maior. Acertei?

- Sim - respondi baixinho. E num tom de voz mais baixo ainda, completei: - Mas também não é tão ruim assim crescer, aprender, conhecer o mundo e...

E continuou:

- Vocês ficam é mais velhos, isso sim. No começo da vida, alguns de vocês sonham em ser ou bombeiros ou uma outra coisa completamente diferente, ou então em ser enfermeira ou alguma outra coisa. E um dia alguns de vocês acabam mesmo sendo bombeiros, ou então enfermeiras. Só que não dá mais para ser aquela outra coisa completamente diferente, porque para isso já é tarde demais. Você não acha que isso também é diminuir?

- Bem... é, acho que sim... - suspirei.

- E não é um diminuir tão bonito quanto o nosso - disse o gordo reizinho, comendo o último pedaço do ursinho de goma. - Sinto muito por você, quer dizer, por todos vocês.

Depois levantou-se, empurrou com dificuldade a barriga pela fenda entre a minha estante de livros e a parede, e desapareceu do quarto. Como sempre, sem dizer adeus e um pouquinho menor do que era quando tinha chegado.
2 comentários:

porra...
texto lindo velho *_*
me passa os nomes certos que vou procurar ler...


Postar um comentário

Opiniões

Arquivo


faLLen

Este é o mistério do quociente:
sobre todos nós, um pouco de chuva tem que cair - só um pouco de chuva.

[tirinhas] Estou sem sorte

Twitter RSS Feed Orkut

Acompanhe

nossas Postagens ou Comentários

RSS Feed

Marcel

Não importa o destino, desde que o enfrentemos com o máximo de abandono...

RSS Feed Orkut

Uruanno

Na vida, é melhor cair lutando ante seu inimigo que permanecer em pé dando as costas aos seus amigos.

Twitter RSS Feed Orkut