Himahimasei

Cortejo funereamente celébrico

Tempos que não posto... desculpem pessoas, mas tou num blecaute total... ou blackout, você decide... Não revisei, não estudei, na verdade eu nem reli... pelo final, aviso que não gostei em NADA desse, absolutamente NADA... mas veio de um temor meu, que tá expresso em uma pequena parte desse texto, e acho que quem realmente me conhece pode decifrar... não vou buscar imagens ou formatações para deixa o texto atraente.


Deitado num cama de hospital, numa maca, ao corredor. Dor, mal-estar, náuseas, eram amigas de longa data já. Há quanto tempo vivia daquele modo? Passando de hospital em hospital, com curtas temporadas em casa, cheio de esperança em continuar até que uma foice ceifasse-lhe a vida. O câncer, metástase, infeccionado em cada órgão do sistema linfático. Uma dor absurda. Lutava contra aquela doença maldita há anos e, recentemente, fora desacreditado. Se não conseguissem um doador compatível, sua morte era certa em alguns meses. Sua mãe chorava sempre que o via, seu pai, já magro e esquelético de preocupação, não chorava mais, tãopouco sorria. Vivia, simplesmente, tentando de tudo para dar a melhor qualidade de vida ao seu filho. Ou qualidade de morte, ele não sabia dizer mais. Seus irmãos eram incompatíveis, e todos empobreciam nas buscas de alguém compatível, afinal, seu sangue era incompatível com todos os outros, e, por ter herdado o os genes recessivos de seus pais, só dependia de seus avós, que já haviam falecido.

Os cabelos brancos e parcos na cabeça de seu pai eram visíveis no início do corredor, conversando apressadamente com uma enfermeira. Podia deduzir o assunto. A última crise hepática que tivera o deixara extremamente debilitado. Não podia ficar parado no corredor, sem auxílios vitais, como um respirador e monitor cardíaco. O plano de saúde procurava meios legais de cancelar o serviço, e isso causava uma confusão tremenda, sempre que alguma emergência acontecia. Fraco. Podia ouvir soluços abafados de sua mãe na outra ponta do corredor. Desesperava-a saber que nada poderia fazer para salvar a vida do filho. Como aquilo podia acontecer? Teria sido uma má mãe? Lembrava-se da infância de seus filhos, correndo pela casa. Naquela época, nenhum era problemático, todos eram sorridentes e felizes, sem doenças sérias ou problemas imensos. Podia ouvir as risadas vindas do corredor, os pés, serelepes, correndo de um lado para outro, e suas vozes gritando, felizes, "Um, dois, três, Nando!" ou "Altas". Via, naquele corredor frio e gélido de hospital seus filhos, escalando as paredes para se esconder, ou então correndo em sua direção, chorando, por que um deles havia se cortado, que era pra ela "ir correndo, por que tá sangrando muito e tá doendo!". E agora, tudo que podia ver era uma cama, com seu filho deitado, contorcendo-se em espasmos de dor, uma sonda em seu abdomem, e seu marido, no outro extremo do corredor, discutindo acaloradamente com um médico.

Só em seus pensamentos, lembrou-se de seus irmãos. Lembrou-se de suas conversas animadas durante os primeiros dias de sua doença, das brincadeiras de licença e vagabundagem em casa. Lembrou-se também da evolução e deterioração do quadro clínico, do princípio de desespero que se instaurara no coração de seus irmãos, que buscavam freneticamente meios de salvá-lo, clínicas e tratamentos que atrasassem a doença enquanto os resultados saíam. Do desespero aberto e franco ao descobrirem que todos da família eram incompatíveis, da raiva ao negar que seus pais fizessem um bebê in vitro para que ele pudesse ser salvo. Uma vida não seria salva em virtude da outra. Se quisessem um outro filho, que tivessem, mas que nunca dissessem que era para salvá-lo, pois ele não aceitaria. Uma vida não é nem nunca será mais valiosa do que outra, e tal sacrifício deve ser feito conscientemente. Agora, seus irmãos buscavam meios de manda-lo a um hospital oncológico na França, especialista naquele tipo de doença. As esposas, tão engajadas quanto eles nessa busca, trabalhavam dia e noite, juntando economias, procurando até mesmo em um mercado negro de órgãos, para tentar salvar a vida do tão querido cunhado. Lutavam com todas as forças e ainda assim, temiam que não fosse o suficiente.

Fora interrompido de seus devaneios por um médico, que lhe perguntava o que sentia, onde doía e o que ele fazia no corredor. Ao ouvir tais palavras, sua mãe saiu de seu torpor, e seu pai, já com as faces afogueadas, desviava o olhar da enfermeira e via aquela cena na maca de seu filho. O médico, tão jovem quanto ele, parecia preocupado e perguntou para a enfermeira por que aquele paciente, em estado tão grave, ainda não fora ligado à um aparelho de hemodiálise e monitores vitais. A resposta viera de forma acanhada: "A enfermeira-chefe mandou deixar ele aqui, Doutor Marques. Aparentemente, o plano de saúde deles não quer pagar as internações..." Esbravejando, o Dr empurrou a maca apressadamete até um quarto de UTI, ligando-o até os aparelhos, apressadamente, tomando cuidado apenas para não machucar ainda mais o corpo já fragilizado. Explicou que aos poucos a dor cederia e que qualquer problema, mandassem chama-lo.

Aos poucos, a dor cedera e ele começara a entrar em um estado de torpor, proporcionado pelas altas doses de morfina e analgésicos, além de vasodilatadores e outros. Perdia a consciência, e ia se lembrando de como odiava tudo aquilo. Como lhe era caro não conseguir se mover, não conseguir sair da cama nem sequer para pedir ajuda, não ser capaz de gritar, não levantar o braço alto o suficiente para ser notado. Era como se fosse uma criança, perdida em meio à multidão, incapaz de encontrar sua mãe, seu pai, ou quem quer que fosse que pudesse ajuda-lo. Inesperadamente, em meio ao desespero, uma mão quente e macia veio ao seu encontro, retirando-o daquela multidão e perguntando-lhe o nome, onde estava sua mãe e seu pai, o que fazia ali. Zonzo, não conseguia responder, e o dono daquela mão simplesmente levantava-o e colocava no ombro, de modo que via tudo e todos ao seu redor, e todos o viam. Podia ver, ao longe, seus pais, acenando alegremente para ele, aliviados. Lentamente, seus irmãos se materializavam ao lado, acenando, chamando-o para ir com eles. Tinha medo de descer daqueles ombros e ficar perdido, abaixou-se para dizer para que lado deveria ir, e viu que, quem o carregava era ele mesmo, mais velho, sadio. A multidão desaparecera. Andaria só até sua família. Agora cunhadas e sobrinhas também estavam ali. Chegara até eles. Abraços e braços o envolviam, calorosos, dóceis. Ouvia ao longe uma voz, que dizia para seguir em paz, que ele desvendara o mistério. Afinal, descançaria em braços calorosos.

Enquanto isso acontecia, seu monitor cardiaco reduzia sua frequência, e, por um defeito técnico, não apitou. A linha tornara-se retilínea. O câncer, em metástase, chegara ao coração e pulmões, reduzindo sua capacidade de sustentação. Um AVE terminara tudo. Ao acordar na manhã seguinte, completamente descançada e estranhamente feliz, a primeira coisa que sua mãe viu foi um esboço sorridente no rosto de seu filho. Tranquilizada, deitou a cabeça novamente sobre os travesseiros e dormiu novamente, reatando aquele lindo sonho que estava tendo, sobre seu filho curado e feliz, dando-lhe o primeiro neto homem. Seu pai, que dormira na poltrona, remexeu-se inquieto, e morreu sem ver, de exaustão. Seu corpo, muito judiado pelo tempo, não suportara o stress de ver seu filho morrendo e não poder fazer nada. Morreu por falência múltipla dos órgãos. Subitamente, seus dois irmãos acordaram, simultâneamente, cada um em sua casa, desesperados. Ligaram um para o outro e contaram o sonho que tinham tido. Seu irmão, carregando um eu mais novo dele mesmo e sumindo, junto do pai, enquanto pediam que cuidassem de tudo e todos. Choraram juntos ao telefone, vestiram-se e foram trabalhar, para depois receber uma ligaçao estranha de sua mãe, calma, plácida, dizendo que o irmão falecera e junto dele, seu pai.
1 comentários:

não peguei o desfecho da coisa, mas bem... claustrofóbico tudo isso .-.


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