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Findalinha - Parte primeira

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Espero que gostem... está bem parco, ainda, mas Parco é um belo nome, não? Bom, essa é a primeira parte.

A terra (parte primeira)


Era fim de ano, quando as luzes gritam e o escuro se esconde, e veio Findalinha. Nascida numa daquelas casas bem abastadas, de pão e farinha. A gente mistura um pouco com terra pra dar consistência e parecer que vai sobrar. O tungstênio brilhante pendurado na lage era pouco, muito pouco, mas ah, criança é criança, e esta em especial, a chegada de Findalinha ofusca tudo. A mãe não sabia se ria, chorava ou enrolava a criança em pedaço de pano sisudo. O pai, de tão caturro, saiu de casa e só voltou dois meses depois, como de costume. Sempre ligeiro. Findalinha chega.

Pena, pena grande, porque para Lourdes Aparecida o natal era a data perfeita pra moleque nascer. Agora já era. Ia chamar Natalino, se fosse menino, Regina Duarte, se fosse menina, mas o dia passou. Nem pra esperar santos reis, a criatura. E enquanto a luz ia se desofuscando, e a criança ganhando forma, ela viu que ainda tinha alguma coisa de especial, escabrosa e esbelta, tranquilizante e nevrálgica, como uma flor vermelha. E não tinha pinto. Perfeito pra um nome feminino, Flor. Mas faltava alguma coisa, uma coisa que marca, com ferro de boi. Uma marca definitiva, enfim, fim, é isso, aqui o troço todo se finda, Florfinda! O marido fugido, Findalinha espreitando.

Quando o homem chegou, a criança engatinhava a braço largo. Só no comprimento, obviamente, porque em espessura Findalinha era fina, muito fina, como se fosse um fiapo de areia torta da terra ingrata. Quando o gentio dormia amontoado e alguém ia pegar água pra beber, se pisava em Findalinha ficava sobre um fio tênue, cair e era tudo. Era uma criança tão fina que quando vinha a vizinhança toda convinha, de lado não se via, só de frente apercebia, só de frente se encarava Findalinha - que cresce.

Mas vamos afastar de Findalinha, vamos que vamos pra falar do fujão. Eustaquiano era um homem gordo, não tediosamente gordo, mas maciço, como moleque entanguido que cresceram na base da lupa. Tinha uma compreensão de responsabilidade singular, para não dizer especial, no pejorativo, óbvio. Conhecia muito bem a responsabilidade e sabia o que o cabra deve fazer nessas ocasiões. Fugia sempre. Uma vez, passou dois anos e meio fora de casa, e Lourdes Aparecida deu pra desesperar. E não sabendo o que fazer, ficava de cócoras, lembrando como fez a filha, e olhava a filha, que achava tudo hilário, mas dava uma coceira. Com medo do futuro, Lourdes Aparecida olhava pra Findalinha, que ria, ah, como ria. E foi pra sempre assim desse dia em diante, blasé sem ser cult, porque sempre que alguém a olhava de perto, Findalinha ria.

Não se pense o povo besta que o homem ia atrás de mulher, ah, não, a não ser que goste da própria mãe. Porque é pra lá que ele ia, o gordo. Até hoje ninguém deu destino de onde era, ou como fazia ele pra chegar até lá sem um tostão no bolso, mas que era assim era. Aliás, perdoe o aparto que me permito, mas tampouco soube alguém como ele casou. O homem era a sensualidade em pessoa, salvo o que não era. Aos vinte e poucos anos, Eustaquiano descobriu que a mangueirinha servia de dois jeitos, e fez a farra. Não fugia da casa da mãe nunca, mas naquele dia de festança solada demorou vinte minutos a mais, e chegou casado. A mãe chorou e rezou um terço sem dois quartos de pedra. Findalinha olhando de trás do olho.

A mãe de Eustaquiano, a que chorou e rezou o terço, não gostava da mulher. Lourdes era bonita, tinha tudo certinho, mas Jesus no meu céu que a tenha, porque o bigode quem tinha era o fervente. Mas não sabia a velha (sem querer depreciar) que por trás daquele buço sólido e impacificável vivia uma alma sensível. Não tinha culpa nenhuma a rapariga se o homem era fujão, ainda que visse nisso um lado bom. Quando vinha visita, procurava o marido, mas a introspecção do cabra estimulava Lourdes a ser mais independente e altiva. Ligeiro, ela via as visitas sozinha, e cuidava dos negócios da casa. Quando ele fugia, não que não amasse, amava, mas ela não aguentava. As visitas ficavam mais em casa, e os amigos ficavam mais soltos. E era um sem medida de carinho, em primeiro só dentro do coração, depois do lado de fora também, mas a carne atrapalhava, então acabou entrando no meio. O mais curioso é que a mulher não se tocava, não percebia a filha fitando do canto da porta, e assim era. E assim ela dava pra companheirança, sem saber que estava perto, ah, tão perto de Findalinha.

Então é isso, acho que a terra foi arada, e o quintal varrido, pro que acontece em seguida, o final tragicômico, mas não no sentido grego.
4 comentários:

cara...
o que eu vi foi um poema em forma de conto... metáforas tipicamente poéticas, não muito objetivo...
muito bom pela história, mas acho que tu acostumou tanto a escrever poema que tudo seu é poetizado xP... no próximo, acho que se tu conseguisse ser menos poético, ficava mais fácil de digerir...


não é pra ser digerido facilmente. ninguém nunca disse que tem que ser o.õ


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