Porque sempre faz isso? – perguntou-lhe o Mestre.
Isso o que?
Sempre que entra no dojo, ajoelha-se, leva o indicador da mão direita à boca, como se puxasse a mão de uma dama para um beijo e depois, fecha em punho a mãe esquerda e beija o anelar. Depois, antes de iniciar qualquer batalha, treinamento de contato ou exame beija longamente o anelar esquerdo. O que pensas? O que te passa na cabeça? É um ritual para dar boa sorte?
Não senhor. – respondeu ele, de cabeça baixa e tom grave. – É simplesmente uma mensagem.
Qual mensagem? A quem ela se destina?
Não sei bem se o senhor sabe de meu passado, Mestre, mas não vejo mal em te contar. Antes de me formar, eu não era a pessoa em que você mais confiaria. Era relapso, cruel, agressivo, apesar de inteligente e esperto, sempre abusando dos outros para conseguir o que queria. Foi quando eu conheci minha futura esposa. Encontrei-a no shopping, enquanto comia num fast-food qualquer. Ela passou por mim e, simplesmente para demonstrar minha autoridade para meus amigos, pedi para que ela me beijasse. Ela sorriu e me deu um tapa na cara, e logo depois, me beijou com paixão. Fiquei intrigado com essa reação e fui ter com ela a sós, longe dos meus amigos, onde poderia ser menos durão e machão, e conversar como uma pessoa normal conversaria.
Sentados na praça de alimentação, ela me contou seus motivos. Ela sabia muito bem que eu não era daquele jeito que aparentava, que era minha vizinha, e sabia muito bem que eu tratava minha mãe e as demais mulheres de minha família com respeito e amor. Ela sabia que eu agia de tal forma apenas para proteger minha família de sofrimentos relacionados a mim. Disse, também, que há muito gostava de mim, mas não ficaria com alguém rude como eu nem que o mundo acabasse. Aquilo me surpreendeu muito, pois ela era extremamente bonita, atraente, e todos os homens a cobiçavam. Levantei-me, pedi desculpas pela grosseria, ajoelhei-me do lado dela e peguei sua mão, e fiz o primeiro gesto que disse. Beijei suavemente a mão dela, e senti um profundo arrepio por todo o meu corpo. Resolvi que não mais seria tão estúpido como estava sendo, e que dali em diante, protegeria a todos que de mim necessitassem. E eis o significado do primeiro gesto.
Algum tempo depois, a reencontrei na rua, andando com seus cachorros. Ofereci ajuda, que foi prontamente aceita, apesar de serem apenas dois yorkshires. Conversamos durante muito tempo nessa caminhada, e fui descobrindo algo novo por ela. Sim, eu gostava dela, e resolvi pedi-la em namoro em meio aos cães. Para a minha surpresa, ela aceitou, e então começamos o namoro. Dois anos depois, eu já era noivo, e procurava uma casa para morarmos. Em todo esse período, sempre que a via eu me ajoelhava e beijava sua mão, onde nossas alianças douradas se encontravam, no nosso anelar direito. Ela, com sua imensa graciosidade, fazia o pequeno brilhante fulgurar mais do que a maior pedra do país. Era o meu anjo.
Com um ano de noivado, consegui juntar dinheiro para nos casarmos e comprar uma casa boa, onde nós dois pudéssemos viver em paz, e próximos aos amigos e pais. Tivemos nossa cerimônia ao cair da tarde, num outono seco e frio, porém agradavelmente hospitaleiro. Lembro-me de cada lágrima derramada naquela cerimônia. Passamos os anéis aos anelares esquerdos, e, ao término da cerimônia, levantei minha mão esquerda e beijei meu anel, oferecendo à minha amada todos os sentimentos e amores que eu teria dali para frente, todos os meus pensamentos e atos seriam voltados para ela, a partir daquele pequeno anel dourado.
Vivemos por mais um ano casados, foi quando tudo veio a baixo, num terremoto. A casa, o carro, muitos amigos, minha família. Ficamos apenas eu e ela, observando tudo ser levado pelo caminhão de entulhos e pensando como reconstruiríamos aquele lar. Labutamos por mais um ano, e então, compramos outra casa, ainda mais perto dos pais dela, que sobreviveram ao terremoto, e ainda mais próximo de nossos amigos, que muito nos apoiaram. Meus amigos de colégio, da época de maldades foram os que mais me ajudaram, se provando além de fortes amigos, grandes camaradas que fariam de tudo para mim. Seis meses após a mudança, minha esposa sofreu um acidente vascular cerebral, que culminou em morte instantânea e indolor. Fiquei estarrecido com a notícia, saí do trabalho sem ao menos informar aonde ia. Como nunca perdera o hábito, sempre antes de sair de casa e começar a trabalhar, eu me ajoelhava perante ela, beijava sua mão esquerda em cima do brilhante, beijava o meu anel e dedicava a ela todo o meu dia e todos os meus pensamentos. Naquele dia não fora diferente, a não ser o fervor com o qual dediquei tudo a ela. Ao chegar em casa, ela não estava mais lá. Busquei informações e a localizei no necrotério do hospital universitário local. Meus sogros estavam lá, juntamente de meus melhores amigos. Nenhuma lágrima corria no meu rosto ou no deles, já que simplesmente não podíamos acreditar. O corpo já havia sido identificado e estava sendo enviado para a funerária. Perguntei se eles cogitaram a doação, e eles nada disseram. Corri ao médico legista e disse que ela ia querer que seus órgãos fossem doados.
O enterro se deu no dia seguinte. Eu não suportaria carregar o caixão, então o entreguei aos meus amigos, que o conduziram com tamanha magnificência que não pude evitar sentir orgulho dos amigos que fizera. Durante o velório, eu não conseguia mais derramar lágrimas, e tudo que consegui fazer foi entregar a ela uma lembrança, para que cruzasse todas as dificuldades e me esperasse, onde quer que fosse, pois eu iria atrás dela. Minha aliança foi enterrada junto de minha esposa, há exatos dois anos e quatro meses. Desde então, sempre que inicio algo, dedico a ela tudo, desde meus atos e palavras até o meu hercúleo esforço de não acelerar nosso encontro, por medo de que isso cause nosso desencontro. Por isso, Mestre, sempre que entro nesse tatame, sempre que ponho esse quimono, sempre que me preparo para uma luta, eu dedico a minha esposa falecida, que levou junto minha felicidade derradeira, mas que sei que me espera pacientemente, onde quer que seja.
É uma bela história rapaz – disse-lhe o Mestre, com os olhos marejados. – Sua esposa se orgulha de você, com toda a certeza desse mundo e te espera, protegendo-o dos males desse mundo.
Orgulho-me dela, Mestre, e a amo mais do que tudo. Se não choro por ela, é por crer que ela está melhor, e que assim, poderemos ter a eternidade, juntos. Eu luto para realizar nossos sonhos em conjunto, e ela sempre estará comigo, pois meu coração foi com ela, e ela o guarda com tanto carinho que posso sentir até hoje, mesmo depois de todo esse tempo. E comigo, guardo não só a lembrança dela, eu a guardo inteiramente no espaço onde ficava meu coração...
Isso o que?
Sempre que entra no dojo, ajoelha-se, leva o indicador da mão direita à boca, como se puxasse a mão de uma dama para um beijo e depois, fecha em punho a mãe esquerda e beija o anelar. Depois, antes de iniciar qualquer batalha, treinamento de contato ou exame beija longamente o anelar esquerdo. O que pensas? O que te passa na cabeça? É um ritual para dar boa sorte?
Não senhor. – respondeu ele, de cabeça baixa e tom grave. – É simplesmente uma mensagem.
Qual mensagem? A quem ela se destina?
Não sei bem se o senhor sabe de meu passado, Mestre, mas não vejo mal em te contar. Antes de me formar, eu não era a pessoa em que você mais confiaria. Era relapso, cruel, agressivo, apesar de inteligente e esperto, sempre abusando dos outros para conseguir o que queria. Foi quando eu conheci minha futura esposa. Encontrei-a no shopping, enquanto comia num fast-food qualquer. Ela passou por mim e, simplesmente para demonstrar minha autoridade para meus amigos, pedi para que ela me beijasse. Ela sorriu e me deu um tapa na cara, e logo depois, me beijou com paixão. Fiquei intrigado com essa reação e fui ter com ela a sós, longe dos meus amigos, onde poderia ser menos durão e machão, e conversar como uma pessoa normal conversaria.
Sentados na praça de alimentação, ela me contou seus motivos. Ela sabia muito bem que eu não era daquele jeito que aparentava, que era minha vizinha, e sabia muito bem que eu tratava minha mãe e as demais mulheres de minha família com respeito e amor. Ela sabia que eu agia de tal forma apenas para proteger minha família de sofrimentos relacionados a mim. Disse, também, que há muito gostava de mim, mas não ficaria com alguém rude como eu nem que o mundo acabasse. Aquilo me surpreendeu muito, pois ela era extremamente bonita, atraente, e todos os homens a cobiçavam. Levantei-me, pedi desculpas pela grosseria, ajoelhei-me do lado dela e peguei sua mão, e fiz o primeiro gesto que disse. Beijei suavemente a mão dela, e senti um profundo arrepio por todo o meu corpo. Resolvi que não mais seria tão estúpido como estava sendo, e que dali em diante, protegeria a todos que de mim necessitassem. E eis o significado do primeiro gesto.
Algum tempo depois, a reencontrei na rua, andando com seus cachorros. Ofereci ajuda, que foi prontamente aceita, apesar de serem apenas dois yorkshires. Conversamos durante muito tempo nessa caminhada, e fui descobrindo algo novo por ela. Sim, eu gostava dela, e resolvi pedi-la em namoro em meio aos cães. Para a minha surpresa, ela aceitou, e então começamos o namoro. Dois anos depois, eu já era noivo, e procurava uma casa para morarmos. Em todo esse período, sempre que a via eu me ajoelhava e beijava sua mão, onde nossas alianças douradas se encontravam, no nosso anelar direito. Ela, com sua imensa graciosidade, fazia o pequeno brilhante fulgurar mais do que a maior pedra do país. Era o meu anjo.
Com um ano de noivado, consegui juntar dinheiro para nos casarmos e comprar uma casa boa, onde nós dois pudéssemos viver em paz, e próximos aos amigos e pais. Tivemos nossa cerimônia ao cair da tarde, num outono seco e frio, porém agradavelmente hospitaleiro. Lembro-me de cada lágrima derramada naquela cerimônia. Passamos os anéis aos anelares esquerdos, e, ao término da cerimônia, levantei minha mão esquerda e beijei meu anel, oferecendo à minha amada todos os sentimentos e amores que eu teria dali para frente, todos os meus pensamentos e atos seriam voltados para ela, a partir daquele pequeno anel dourado.
Vivemos por mais um ano casados, foi quando tudo veio a baixo, num terremoto. A casa, o carro, muitos amigos, minha família. Ficamos apenas eu e ela, observando tudo ser levado pelo caminhão de entulhos e pensando como reconstruiríamos aquele lar. Labutamos por mais um ano, e então, compramos outra casa, ainda mais perto dos pais dela, que sobreviveram ao terremoto, e ainda mais próximo de nossos amigos, que muito nos apoiaram. Meus amigos de colégio, da época de maldades foram os que mais me ajudaram, se provando além de fortes amigos, grandes camaradas que fariam de tudo para mim. Seis meses após a mudança, minha esposa sofreu um acidente vascular cerebral, que culminou em morte instantânea e indolor. Fiquei estarrecido com a notícia, saí do trabalho sem ao menos informar aonde ia. Como nunca perdera o hábito, sempre antes de sair de casa e começar a trabalhar, eu me ajoelhava perante ela, beijava sua mão esquerda em cima do brilhante, beijava o meu anel e dedicava a ela todo o meu dia e todos os meus pensamentos. Naquele dia não fora diferente, a não ser o fervor com o qual dediquei tudo a ela. Ao chegar em casa, ela não estava mais lá. Busquei informações e a localizei no necrotério do hospital universitário local. Meus sogros estavam lá, juntamente de meus melhores amigos. Nenhuma lágrima corria no meu rosto ou no deles, já que simplesmente não podíamos acreditar. O corpo já havia sido identificado e estava sendo enviado para a funerária. Perguntei se eles cogitaram a doação, e eles nada disseram. Corri ao médico legista e disse que ela ia querer que seus órgãos fossem doados.
O enterro se deu no dia seguinte. Eu não suportaria carregar o caixão, então o entreguei aos meus amigos, que o conduziram com tamanha magnificência que não pude evitar sentir orgulho dos amigos que fizera. Durante o velório, eu não conseguia mais derramar lágrimas, e tudo que consegui fazer foi entregar a ela uma lembrança, para que cruzasse todas as dificuldades e me esperasse, onde quer que fosse, pois eu iria atrás dela. Minha aliança foi enterrada junto de minha esposa, há exatos dois anos e quatro meses. Desde então, sempre que inicio algo, dedico a ela tudo, desde meus atos e palavras até o meu hercúleo esforço de não acelerar nosso encontro, por medo de que isso cause nosso desencontro. Por isso, Mestre, sempre que entro nesse tatame, sempre que ponho esse quimono, sempre que me preparo para uma luta, eu dedico a minha esposa falecida, que levou junto minha felicidade derradeira, mas que sei que me espera pacientemente, onde quer que seja.
É uma bela história rapaz – disse-lhe o Mestre, com os olhos marejados. – Sua esposa se orgulha de você, com toda a certeza desse mundo e te espera, protegendo-o dos males desse mundo.
Orgulho-me dela, Mestre, e a amo mais do que tudo. Se não choro por ela, é por crer que ela está melhor, e que assim, poderemos ter a eternidade, juntos. Eu luto para realizar nossos sonhos em conjunto, e ela sempre estará comigo, pois meu coração foi com ela, e ela o guarda com tanto carinho que posso sentir até hoje, mesmo depois de todo esse tempo. E comigo, guardo não só a lembrança dela, eu a guardo inteiramente no espaço onde ficava meu coração...
O estranho é que isso surgiu no meio de um American Idol, portanto, procedência e qualidade são duvidosas. Depois de tanto tempo, eu até tenho outros pra postar, mas tenho que finalizar ainda...






21 de fevereiro de 2010 às 20:04
O Simon Cowell te passaria de fase, e eu também. Pode ir pra LA, filhão (:
21 de fevereiro de 2010 às 20:19
q lindo ç.ç *limpa as lágrimas*
21 de fevereiro de 2010 às 23:11
NU.
28 de fevereiro de 2010 às 13:25
O que dizer... além, de mais uma vez, comprovar que toda esta expectativa, agradável e única, que crio a cada postagem sua é sempre saciada...
Grande texto... todo o desenvolver do texto é bem concatenado e prende muito bem o leitor.
Além de mesclar, isso é subjetivo meu, o atual com os tempos passados, idade média e principalmente, shogunato...
Parabéns!
Postar um comentário