
-Então você vai mesmo...
Não era uma pergunta. Há meses não nos encontrávamos, e eu
ainda me sentia só.
-É, vou. Vai ser bom pra mim.
Duvido que ela acreditaria. Afinal, eu sempre dissera o
contrário, mesmo que realmente fosse.
-Que bom. Espero que goste bastante de lá. Não tem mais
muita coisa que te segure aqui, né?
Era uma bela provocação. Naquele imenso corredor de um
aeroporto qualquer, era incrível como ela conseguia fazer com que eu me
sentisse preso, apertado, desconfortável.
-...
Meu silêncio talvez significasse algo.
-Agora você fuma?
Lembrei-me quase com culpa do cigarro, ainda apagado, entre
meus dedos. Era uma marca cara, com cravo e algumas outras coisas que nem mesmo
eu saberia dizer.
-Às vezes a gente precisa de alguma coisa nova.
Não disse que aquela era pra substituir uma outra coisa,
mais antiga.
-É, eu vejo.
Seus olhos não saíam dos meus, e minha mão suava cada vez
mais. A vontade de gritar e perguntar o que ela queria de mim, porque me
torturava daquele jeito era maior do que minha razão, mas ainda assim a
controlava. Não perderia novamente aquela luta.
-Pra onde você vai mesmo?
A pergunta era por pura educação. Ela sabia muito bem aonde
eu ia, e porque, e o que faria, e como. Ela me ajudara a planejar por anos
aquele tipo de coisa. A única diferença aqui é que ela não se incluía mais nos
planos.
-Pro sul. Lá tem uma faculdade que tem um grande foco nas
áreas que eu quero, e concluir os estudos lá vai permitir que eu consiga um
emprego mais fácil, além de melhorar meus conhecimentos.
-Vai ficar lá por quanto tempo?
-Se tudo der certo, um ano. Se não, mais.
Não queria responder aquilo. Afinal, sequer sabia se iria
voltar. Se arrumasse um emprego por lá, ficaria com todo prazer, afinal, morar
longe de tudo e todos, recomeçar, sempre fora uma vontade minha. Aliás, nossa,
digo com certo desgosto nesse momento.
-Ah...
-Veio sozinha?
-Não, não... Peguei carona com minha irmã.
-Ah...
Era incômodo pensar nela, ali, sozinha. Nossos antigos
amigos estavam todos perto, mas aquele momento era só nosso, nossa intimidade
depois de toda nossa história juntos. Afinal, não é todo dia que um casal que
ficou junto por 5 anos se separa e depois de meses sem se ver, se reencontram
na despedida de um deles. Por 5 anos ficamos juntos e lutamos juntos. Trabalhamos
e juntamos tudo que tínhamos para conseguir uma ou outra coisa, e enfrentamos
nossos opositores com a mesma força que enfrentávamos as desgraças da vida.
-Acho que o pessoal quer falar com você. Vai lá.
Era uma desculpa pra ir embora? Ou ela realmente achava que
o "pessoal" ainda não tinha falado comigo?
-Não, tudo bem, meu voo ainda demora.
Por que eu estava prolongando aquele momento? Eu ainda
queria ficar perto dela, mesmo desconfortável.
-Ah...
Silêncio novamente.
-Eu vou embora. Não deveria ter vindo. Desculpa estragar sua
despedida.
-Não estragou.
-É claro que eu estraguei. A gente não se vê há tanto tempo,
e eu te fiz tão mal já. Só que eu não podia deixar você ir embora sem te ver
uma última vez. Por mais que fale que vai voltar em um ano, eu sei que pode ser
que você não volte.
-Não estragou.
-Claro... Tudo bem.
-Eu estou falando sério.
-Eu acredito.
Lágrimas começam a brotar em seus olhos. Minha garganta
queima.
-É só que, bem... É estranho te ver indo embora, assim...
-Assim como?
-Sozinho. Eu sempre achei que você encontraria outra bem
rápido.
-Eu não fiquei com ninguém desde você. Sei lá. Não pintou
clima.
-Pois é, eu também. Estranho né? Acho que perdemos o
jeito...
-Talvez...
Estava completamente sem graça. Não esperava aquela conversa.
-Mas mesmo assim, eu já vou. Não vou aguentar isso.
-Você não precisa.
-Claro que preciso ir. O pessoal vai ficar desconfortável.
-Eu quis dizer que você não precisa aguentar.
Silêncio, mas dessa vez diferente. Seu rosto refletia uma
dúvida ingênua e verdadeira. Ela não entendeu o que eu quis dizer.
-Isso, você não precisa aguentar me ver indo embora, se é
isso que você se referia. Ou você se referia ao desconforto do pessoal?
Adicionei rapidamente, já sofrendo por ter interpretado mal
a afirmação tão simples dela. Burro! É claro que ela ficaria desconfortável com
o desconforto do pessoal! BURRO! Mas agora o mal já estava feio. Tudo que eu
poderia fazer é levar até o final.
-Não, eu não aguentaria ver você indo. Mas por que eu não
precisaria? Você já está com tudo pronto, e se não for vai perder tudo. E...
Interrompi exatamente aí, antes que tudo fosse por água
abaixo novamente.
-Então! Não precisa me ver indo embora.
-Por que não precisaria? Você...
Interrompi novamente.
-Porque você pode ir comigo.
Não sabia outro jeito de jogar aquela bomba. Eu ainda amava
aquela mulher e aquele período longe só me fez perceber isso ainda mais.
-Eu não posso!
Disse, mais espantada do que eu, com minha súbita atitude
egoísta.
-Por quê?!
-E meu emprego? Minhas coisas aqui? Além disso, eu não tenho
passagem, nem bagagem! Mesmo que eu queira, é impossível!
-Seu emprego está garantido lá, sua passagem está aqui e,
daquelas 3 malas, 2 são suas. Roupas e outros utensílios que pode precisar.
Tudo. Só preciso que me diga se quer ir ou não comigo, e darei então o destino
certo a tudo.
-Como fez isso? Sem me consultar? Por quê?!
-Fiz, sem te consultar porque te amo.
Segundos pareceriam horas, e minutos anos, se a resposta
tivesse demorado mais do que o tempo para o fim da última vogal dita.





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