Himahimasei

1943

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Nem mesmo as moscas perceberam quando a madeira correu pelo ar sem vento, fazendo as texturas rasgadas do velho shōji vibrarem levemente. A noite pediu emprestado ao vento que não estava lá um pouco de seu ruído, e, suavemente, foi adjetivando a atmosfera: esverdeada, musgosa, gélida. As gotas d'água nas poças recém-chovidas davam ao antigo jardim uma aura solene, tempestiva.

Tremendo, o pequeno Noburō atravessou o fino obstáculo de madeira que separava o velho casebre do descampado, descendo ao nível das pedras geladas, pouco regulares. Ruído algum atravessaria a densa manta de ar úmido e cristalino que pairava naquela pequena vila.

Fazia tempo que não fazia tanto frio - especificamente, desde que o primeiro Itsumade começou a sobrevoar a cidade cuspindo fogo. Noburō já ouvira falar muitas vezes daquelas aves de bafo quente que perseguiam aqueles que não davam de comer aos necessitados. Quantas pessoas teriam morrido de fome e se tornado yōkais após o nascimento do primeiro?

O pequeno rapaz não saberia responder, mas, fossem quantos fossem, esperava que mudassem de idéia desta vez. Era madrugada, e ele não comia há dois dias. A velha casa, que fora uma vez bonita e pintada com as cores da sua grei, era agora um amontoado de papel e madeira em ruínas, destroçado pela falta de verba e cuidado. E fazia frio.

Noburō seguiu caminho pelo caminho de pedras e poças, pisando o chão com seus pés descalços e aquecendo levemente o ar com seu corpo vibrante. As árvores de folhas paradas brilhavam com o reflexo das poças e da lua, e destacavam do verde hachurado de toda a cena, enquanto o pequeno homem de traço chim seguia hesitantemente até a estrada que levava ao centro da cidadela.

Pisando na terra inclemente, subiu os últimos passos que separavam o jardim esverdeado da estrada, que se alongava infinitamente até poucas esquinas adiante, como se o mundo iniciasse e terminasse num espaço de cento e dezessete passos. O ar, incomodado com sua imprestez descritiva, fez questão de se resfriar um pouco mais, fazendo com que o garoto soltasse pequenas lufadas de fumaça ao respirar.

Agora na estrada, seguiu lentamente pelo largo traçado irregular entre cercas de madeira, gelo e limão. Se olhasse para cima, não teria visto naquela noite estrelada um único tori-san a cortar o negror do infinito. Segurando seu agora-revelado balde de madeira, tremeu por alguns passos enlameados até a metade do caminho, e lá parou pela primeira vez.

- Betobeto-san? estremeceu o rapaz. Olhou para trás e a visão do caminho para casa pouco lhe distraiu, ante o medo de encontrar alguém que não uma pessoa na noite. Uma raposa? Não, kitsune-san não anda de pé. Aqueles passos, de quem eram então?

O frágil menino seguiu mais alguns passos, assustado, quando mais uma vez ouviu o som de pés tocando o mar-de-poças que deixava para trás. Olhou para trás e implorou: "Betobeto-san?". Nada. E tinha mais. As velhas do tempo dos velhos em Nara diziam que quando você ouve passos, olha para trás e nada vê, é um yōkai pedindo passagem.

Informado pelo estômago que não poderia permanecer ali, Noburō seguiu caminho outra vez, olhando para o chão, para o chão, para o chão, passos.

O que fazer?

Seguindo cuidadosamente para o lado da rua, Noburō fez um último apelo, com toda a sua vontade, e falou o mais alto que podia, chorando para a noite embaçada: "Betobeto-san, pode atravessar!"

O que ocorreu depois o rapaz não percebeu, já que nada perceberia outra vez. Se tivesse olhado para trás, não veria betobeto-san algum, pois o que havia ali era muito mais humano e desumano que qualquer yōkai. A noite presenciaria pela primeira e última vez aquele Ama-no-jaku, com seu pesado arco negro que disparava sem aljavas. Mas Noburō nunca perceberia isso, pois pingava até o chão num baque surdo como todo o resto da cena, atingido pela aljava explosiva da arma daquele yōkai dos céus, que estranhamente se desesperava ao ver o que havia feito, tão maligno que era, e gritava contra tudo ao seu redor as palavras que aprendera do pássaro demônio que o jogou no chão, itsumade, itsumade? Até quando?!
2 comentários:

Parabéns cara, acaba de criar um ÓTIMO conto, que eu sinceramente AMEI ^^


Você escreve MUITO! Muito bom meeeesmo, adorei :D


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