Himahimasei

A Viagem, ou Alegoria do Poder

Marcadores: ,

(Secretária de bordo)

Um aviso aos navegantes (do seu capitão).

(Sonora)

(Capitão)

Caros passageiros
desta silente empreitada
aparece à frente um borrão entediante
à esquerda, um peixe-espada

não falo, entretanto, como guia
tampouco ofereço orientação
se me arrisco em rimas simples
é para oferecer salvação

sou, sim, a estrela que guia
sou a seta que aponta adiante
aos poucos traçando e delineando
sobre o azul distante

não sou vela que acende
tampouco príncipe do mar
mas se me cabe ser de valia
a vós cabe me amar

meu semblante é imponente
minha voz tonitruante
vós podeis sempre confiar
neste caráter impedante

(Passageiro)

Ouso interromper, nobre mártir
teu discurso sobre nossa sorte
mas me acomete, entrementes:
como confiar em tal homem-forte?

são os homens não mais que oceanos
piscinas em azul, mares-espelho
belos por fora, mas prova o marulho
haverá perigos a quebrar-lhe o artelho

ainda em raso, desconfio
por trás de todo lago transparente
poderá haver sempre (assim creio)
ouriços na pedra saliente

irás ou não nos guiar?
isso não pude entender
se pretendes mesmo se impor
melhor não se contradizer

(Passageira)

Cala-te, querido
não confiai tanto na sorte
ele vos ofereceste a vida
mas vós clamais pela morte!

cala-te, e consente
que o caminho é duro ao vadio
dispomos de poucas providências
o convés é duro, frio

(Passageiro, acovardado)

O que quereis dizer?
pretendes me abandonar?

(Passageira)

A vós convém calar
e ao destino, suceder
a mim, acompanhar
e aguardar o alvorecer

(Sonora)

(Capitão)

Meu amigo, não pretendo impor
se não pretendes obedecer
mas haverá outra opção?
que pretendes fazer?

não tendes outro caminho
não avisto outras navegações
que destino pretendes alçar?
abandonar-se aos vagalhões?

(Passageiro)

Sou homem íntegro
prefiro beber cicuta
não jogarei minha moral às ondas
para beber com esses filhos-da-puta

(Sonora)

(Capitão)

Contenha a boca, homem-de-deus!
estamos num ambiente civilizado
ninguém, que eu saiba, propôs
que tu morresses afogado!

(Passageiro)

Não falei de afogamento
só aludi à cicuta

(Capitão, sussurando)

Este tem boa oratória
é ele sim um filho-da-puta

(Secretária de bordo)

Estamos já em alto mar.

(Passageiro)

Então é isso
não haverá volta
este é um motim
mas não manterei escolta

viverei segundo minhas regras
até um dia comprovar
vossa grandiosa gerência
sobre os cantos deste mar

(Capitão, aos gritos)

Não posso aceitar um motim!

(Passageiro, também aos gritos)

És a voz tonitruante
sou a flama do insurgente

(Capitão)

Calar-te-ei em um instante.

(Passageiro)

Pois tente!

(Sonora)
4 comentários:

Fallen, muito bom, cada dia me surpreende mais HAUhuhA Mandou bem.
abrazz


Fallen!! Já disse que adoro as suas poesias, né? Muito boas *-*~~~


gostei do filho-do-puta...

Quando estiver em condições normais, tentarei postar algo à altura, por hora só admiração me acomete e isso me invalida para tecer um comentário pertinente.


finalmente li
e concordo, um de seus textos mais explícitos, se eu interpretei tudo certo...

adorei ver você usando métrica e rima em um poema, coisa que há tanto não via


Postar um comentário

Opiniões

Arquivo


faLLen

Este é o mistério do quociente:
sobre todos nós, um pouco de chuva tem que cair - só um pouco de chuva.

[tirinhas] Estou sem sorte

Twitter RSS Feed Orkut

Acompanhe

nossas Postagens ou Comentários

RSS Feed

Marcel

Não importa o destino, desde que o enfrentemos com o máximo de abandono...

RSS Feed Orkut

Uruanno

Na vida, é melhor cair lutando ante seu inimigo que permanecer em pé dando as costas aos seus amigos.

Twitter RSS Feed Orkut