Não defendo nenhuma teoria nesse conto... Uso apenas como licença poética, entendam por favor...Vagava ele pelo seu próprio velório. Ainda não entendia muito bem como fora parar ali, muito menos por que. Sabia apenas que acordara no necrotério, sendo levado para a sala onde seu velório seria realizado. Levantou-se da maca, e soube que estava morto. De algum modo, sabia que a partir daquele momento até a hora em que seu coro fosse enterrado, poderia ser Onipresente e Onisciente em relação às conversas sobre ele, e só sobre ele, dentro de seu velório. Lá dentro, na sala, já estavam seus pais, seus familiares mais próximos e seus três melhores amigos, todos extremamente abalados e tristes. Ele resolveu testar o recém-descoberto "poder". Imediatamente estava entre seus amigos, que diziam quão lamentável era a morte, e como era possível, sendo jovem como era, e sempre tão cheio de vigor. Lembravam de suas brincadeiras e comentários, e então, já com os olhos injetados, começaram a chorar silenciosamente. Ele se retira, pois lamentava ter trago tamanha tristeza aos amigos.
Segue em direção à sua mãe, que chora silenciosamente, porém tranquila, ao pensar que seu filho, tão bom, seguiria para fora do purgatório onde viviam. Seu pai, aparentando firmeza, chorava copiosamente de dor por dentro, indignado com a morte prematura de seu filho. SEU filho, seu orgulho e paixão, se fora, por negligência dele. Suavemente, tocou o rosto de seu pai e disse: "Calma Pai, eu dou meu jeito. Só cuida bem da mãe. E mais, não foi sua culpa." Seu pai sequer esboçou reação, porém ele sentiu que a dor dele havia diminuído. Viu que outros haviam chegado, e já estava ao seu lado. Esperou que fossem até a família prestar homenagem e voltarem ao caixão, para fitá-lo. Ouviu os comentários, vindos desse grupo recém-chegado. "Morreu cedo, né?"
"É, mas parece que não deixou de aproveitar da própria vida."
"Deve ter curtido cada minuto..."
"Acho que ele cometeu diversos pecados, mas o mais comum era o adultério, e isso é certeza!"
Não suportando ouvir mais, resolveu dar uma volta pelo salão. Viu, em um canto afastado, próximo à porta que ligava aquela sala a sala de velório vizinha, sua namorada, recostada em alguma coisa. Ele não tinha coragem de se aproximar dela, pois se sentia o maior canalha do mundo, por morrer e deixá-la sofrer sua perda. Prepotente o pensamento, mas com toda a lógica do mundo.
Viajou por entre outros grupos, pegando pedaços aleatórios de conversa. Dentre eles, o melhor: "Que horrível para eles, né? Dois velórios em um dia..." e então o assunto mudou para o casamento da sobrinha da mulher. Curioso sobre o segundo velório, resolveu seguir até aquela sala, para ver quem era. Ao chegar perto da porta de divisa entre as salas, viu sua namorada sentada no colo de sua mãe, ambas chorando copiosamente. Fugindo daquela cena, voltou aos seus amigos. Eles se perguntavam como nunca repararam na doença que o havia levado à morte. Os sintomas eram claros, mas nem por isso conseguiram salvá-lo daquela maldita doença genética, mas em compensação, os médicos poderiam privá-lo de toda a dor que ele havia sentido em seus últimos dias. Ele não se lembrava de como era sentir dor, sabia apenas que os últimos dias não haviam sido agradáveis de viver. Tentou se lembrar do que sentia, onde era a "dor" dita por eles, mas nada passava por sua mente. Vagueou entre eles por mais um tempo, ouvindo falarem de cenas ainda em vida, e se lembrando com carinho daqueles momentos, das risadas e dos choros contidos. Lembrou-se de como conheceu cada um deles, de cada problema criado e superado pelo grupo. Lembrou-se, ainda mais, das promessas feitas e cumpridas, e pensou, ao fim de tudo, quanta dor ele estava causando a eles. Retirou-se, cabisbaixo, e sentou-se entre algumas das pessoas que anteriormente eram chamadas de amigos e colegas de hobbie. Perjúrias, difamações, era o que ele mais ouvia entre aquele grupo. Pessoas que se diziam tão amigas quando em vida, agora o acusavam de traidor, doente, cruel.
Não suportou tamanha negatividade, e novamente vagou por entre os convidados, ouvindo pedaços ainda mais aleatórios de conversa. O principal tópico era o duplo velório, cujas pessoas eram comuns. Sua curiosidade apenas aumentou, e resolveu seguir em direção àquela porta. Sua namorada ainda estava lá, acompanhada de sua mãe, e continuavam a chorar copiosamente. Relutante, tapou os ouvidos e correu, pronto para atravessar a porta sem ouvir o que diziam. Afinal, era ELE o dotado de poderes ali. Passou sem sequer ouvir um ruído. Estava na sala ao lado. Nada ouvia, nada via, a não ser o caixão, e dentro dele, narcíseos amarelados. Nada, ninguém. Talvez, o corpo não estivesse preparado ainda. Mas então, o que o caixão fazia ali? Resolveu voltar, intrigado com aquilo, tanto que até se esqueceu de sua amada próxima a porta. Entreouviu a conversa acidentalmente. "Ó, Deus meu, como fazes isso comigo? Como me tira a coisa que mais amo na terra assim?" Ainda mais intrigado do que com o caixão vazio, resolveu ouvir melhor. Por mais que sua sogra gostasse dele, ele passava longe de ser a coisa mais amada por ela. "Como, Deus, leva a pessoa que mais me trazia felicidade com seu sorriso, e mais, levou-a junto da pessoa que a deixava feliz. Para fechar, Deus, com chave de ouro, como ousa me negar a felicidade de ver minha filha com a mesma felicidade que eu tive, em tê-la?"
Congelado, ele pensou. Enquanto pensava, sentiu os olhos lacrimejarem, e um olhar aguçado penetrar sua cabeça. Levantou os olhos lacrimejantes e encarou, de frente, os olhos de sua namorada. Ela sorriu, em meio às lágrimas, e veio em sua direção. Abraçou-o, e sussurrou em seu ouvido as mesmas palavras que ele dissera para seu pai: "Não é sua culpa."
Abraçando-a de volta, sussurrou ao seu ouvido: "Como sabe que eu estava aqui? E o que sua mãe está dizendo?"
"Eu não sabia, acabo de te ver. Minha mãe está desconsolada com a minha morte, e com a sua... E, consequentemente, com a morte do nosso filho".
"Filho?!"






28 de junho de 2009 às 19:46
fusão de filmes
tem uns errinhos aqui e ali, mas eu curti pela mudança repentina no final =O
28 de junho de 2009 às 20:31
cansei de me desculpar pelos erros de português... u_u
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