Pode parecer estranho que eu esteja revivendo essa história justamente agora, depois de tanto tempo, de tanta coisa, mas é que hoje eu abri um documento empoeirado e vi o que me traz certo desespero. Vi que perdi uma das melhores coisas que já tive, e que provavelmente nunca a reconstituirei. Vi um grupo de amigos se dissolver, sumir e desaparecer, vi uma irmandade falir e afundar no pó. Vi o que sempre tive medo acontecer, vi amigos se abandonando e se excluindo.
Amigos antes inseparáveis, amigos-irmãos, amigos de sangue desistiram um do outro, aos poucos se excluíram da vida dos outros e sumiram na névoa da distância. Senti e vi isso na pele, vivi cada segundo desse, e conscientemente permiti que fossem. Nada poderia fazer para mantê-los juntos, manter-nos devo dizer. Afinal, eu fui um dos que admitiu, aliás, acredito ter sido o único a permitir, pois todos os outros queriam isso. Não nego que em alguns momentos quis, mas sempre ao retornar os meus pensamentos àqueles momentos vividos juntos, eu sabia que não queria aquilo, que sentiria falta, como de fato sinto.
Concordo, era impraticável a situação. Um se negava a ouvir, outro se negava a desistir, outro ainda não conseguia aceitar, enquanto o último não sabia o que queria. Tudo se complicou ainda mais após a fuga de um de nós dos outros. Não mais conversava, não mais frequentava o que marcávamos, não mais nos reconhecia. Isolou-se de tudo e todos em sua casa, com o que eu mesmo diagnostiquei depressão. Após isso, irado, desisti de tudo, e joguei para o ar, e hoje me arrependo, tentando juntar os cacos daquilo que espalhei aos quatro ventos. Decidiu-se, portanto, a dissolução do grupo. Creio que pensando que isso resolveria tudo. A meu ver, apenas agravou os problemas. Pouco depois, o grupo já dissolvido, dissolveu-se ainda mais. Não mais conseguíamos nos juntar para conversar e discutir, não conseguíamos conversar normalmente, nem tão pouco nos ver mais como um grupo. Só conseguia ver um por vez, fosse por um motivo ou outro, e geralmente com conversas tão secretas e individuais que me perguntava se realmente valia a pena nos chamar de grupo. Perguntava-me se os outros ainda eram amigos, e se faziam a mesma coisa entre si, contando segredos e pedindo que os mesmos não me fossem repassados. Aliás, tenho essa certeza.
Quão longe fomos simplesmente para poder sermos amigos? Quantos sacrifícios fizemos para estar onde precisávamos, quando éramos necessários? Quanta ajuda e quantas vezes já nos levantamos, para que agora tenha tudo se tornado cada um por si e ninguém por todos? Nosso mote não era Um por Todos e Todos por Um? O que somos hoje? Eu não consigo mais nos ver como amigos, quando estamos juntos, um sempre acaba só, pois o assunto dos outros dois (já que o grupo não mais existe) não é do conhecimento do terceiro, e gastar-se-ia muito tempo para elucidá-lo. E quando estão a sós, a dupla devaneia sobre assuntos próprios, raramente levando a discussão para outros momentos, que não quando estão acompanhados apenas um do outro. Eu, que um dia já fui o elo, nada mais sou do que um elo de diversas correntes diferentes, e um elo cada vez menos importante e desgastado. Admito que tenho medo de perder essa importância, tenho medo de deixar de ser amigo daqueles antigos componentes do antigo grupo.
Diz-se que as pessoas evoluem e crescem, mas se esse for o destino dessa evolução, prefiro não evoluir. Sinto saudades da confiança que já tive e que já vi entre pessoas. Hoje em dia tenho a confiança de várias pessoas, e não abandonarei nenhuma delas, mas não consigo sentir a mesma confiança e amizade das três pessoas que mais me foram importantes.
Um dos sonhos que tenho é conseguir juntar todos os meus amigos regularmente, e que todos sejam amigos entre si, para podermos conversar sobre tudo e qualquer coisa, discutir e debater, simplesmente sentados em círculo em uma sala, bar ou esquina, bebendo água ou whisky ou nada. Livros, ideologias, filosofias, modelos de carro, mulheres, qualquer coisa já seria uma discussão agradável, desde que todos interagissem e se comunicassem com o mesmo gosto. Um dia, sairíamos todos, montados em “cavalos” e viajaríamos sem destino, simplesmente para ficarmos mais tempo juntos.
Perdi todas as esperanças de juntar novamente um grupo homogêneo e completamente amigo. Perdi as esperanças de recriar esse grupo morto, assim como perdi as esperanças de que algum dia alguém se sinta como eu me sinto. Perdi completamente a vontade de criar novas amizades como as que um dia tive.
No fim, posso ter sido eu quem se afastou, posso ter sido eu quem se excluiu, quem fugiu, quem se escondeu, quem negou, mas agora sou eu o único que conversa e fui eu o único que negou-se a abandonar o que já havia passado, deixando as coisas como estavam. Tudo pelo qual lutamos para construir continua intacto em meu coração, e nunca vai se apagar. E enfim, no fim, acho que nunca conseguirei abandonar de vez um amigo, acho que nunca deixarei um amigo de lado, e nunca vou ignorá-lo. No fim derradeiro, basta que alguém me peça ajuda, e sempre estarei disposto a ajudar...
Estranho como um texto pode ter vários significados. Entendam o que quiser, mas esse não é o original, e muito menos inédito.





18 de novembro de 2009 às 00:08
inédito não é, pelo menos pra mim não |:
então acho que tenho que escrever uma resposta pra isso, muito embora isso cheire a resposta ao meu quixote...
e eu o farei dignamente, num post próprio, de forma que vou me poupar, especialmente como personagem, de comentar mais.
20 de novembro de 2009 às 15:17
eu também devo fazer um post acerca disso... o marginal por se situar nas bordas vê aquilo que os centrais não vêem... mas como posso falar algo disso se me recusei a ir em todas as congregações?
No mais... mesmo que tu tentasse incessantemente e fosse sempre o elo dessa corrente, enferrujada, tudo nesta vida converge-diverge apropriadamente aos interesses envolvidos... não há o que lamuriar, pelo contrário, alguns poucos dos muitos tornaram-se grandes, mutuais...
e se for olhar o saldo... aí sim tu perderá...
O destino é inexorável...
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