A fadista - e por que não poetisa? - Mísia transformou em fado, a partir da tradução de Rosa Lobato Faria, a bela La chanson des vieux amants. Transcrevo aqui a versão de Mísia, que para mim consegue captar bem a aura do romantismo cru, arrebatador, quase anti-romântico (num sentido clássico, de idealização) que caracterizava o verso breliano.
Fonte: http://cantodobrel.blogspot.com/2009/12/os-velhos-amantes.html
Mil vezes eu peguei na mala, mil vezes tu te foste embora
E tanto barco a ir ao fundo tornava o mar da nossa casa
Em oceano de loucura, quando oscilava o nosso mundo
Eu perdia o golpe de asa e tu o gosto da aventura…
Ai meu amor, meu doce e terno e deslumbrante amor
Amor à chuva, amor em sol maior, amor demais, amor eterno.
Conheço bem os teus desejos e tu as minhas fantasias
Morreste em mim todos os beijos, nasci em ti todos os dias
Se muita vez fomos traição e muita vez mudou o vento
E muito gesto foi insulto, em tanta dor de mão em mão
Não aprendemos o talento, de envelhecer sem ser adultos…
Ai meu amor, meu doce e terno e deslumbrante amor
Amor à chuva, amor em sol maior, amor demais, amor eterno.
E quanto mais o tempo passa e quanto mais a vida flui
e quanto mais se perde a graça do que tu foste e da que eu fui
Mais a ternura nos aperta, mais a palavra fica certa
Mais o amor toma lugar, envelhecemos mais depressa
mas nos teus olhos a promessa vai-se cumprindo devagar…
Ai meu amor, meu doce e terno e deslumbrante amor
Amor à chuva, amor em sol maior, amor demais, amor eterno.






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