Show da mente
Do fundo de negro poço ergo uma arca. A corda se desfaz, peso antigo e eterno sobre ela. Pobre coitada, nem nunca vira a luz do mundo e já morria, tênue, em minhas mãos.
Do fundo da memória retiro alva chave. Sua corrente, luzindo, permanece intocada há tanto tempo que se desfaz em alegria ao toque.
Do fundo do coração abro uma antiga mágoa. Tão antiga quanto a própria alma, e tão nova quanto a vida recém-criada.
Do fundo da arca retiro a lâmina, tão afiada quanto a tesoura das parcas. Seu gume, mesmo após existências de solidão imersa em tal poço, continua a ferir-me com a mesma intensidade.
Minhas cicatrizes, antigas e esquecidas, abrem-se em jorros de sangue e dor. Pensamentos e memórias, suprimidos e deletados, retornam e me derrubam. O medo derradeiro se apossa. Só, temo a solidão de meus passos. Tudo ao ver a arma de meus crimes, meu grande e maior defeito. Por debaixo de tal chaga, papéis onde escarlate tinta marca palavras de sangue, enquanto anis letras registram as lágrimas, além de pálidas e sem cor palavras de dor, marcadas profundamente naqueles velhos papiros. Um nauseabundo cheiro emerge, vindo de algum lugar dentro da arca. Vertigens me acometem. Cheiros ácidos, ocres, aterradores. Visões torturantes acometem-me, sem que reconheça qualquer uma como própria, apesar da certeza de a mim, e só a mim, pertencerem.
Segundo após segundo, logo ao tocar o frio aço da lâmina, meu corpo tomba, lentamente, em direção ao execrável e repugnante líquido negro, lamaçal milenar. Nunca achei prudente tocar diretamente o lago, nem nunca desejei tal feito de coragem, pois sempre tive a impressão de que, caso tocado, jamais permitiria que voltasse à tona. Provavelmente, não morreria, mas estaria para sempre imerso em tal repugnância.
O poço crescia, sempre cresceu, à medida que a arca, oculta em seu interior, aumentava de tamanho para armazenar tudo que era eu. Nunca soube manejar bem aquela arca, muito menos desejava saber o que guardava, nem como abria, muito menos o que era, só me servia, e assim bastava.
Um suave baque, mergulho de cabeça no negrume aquoso, o que quer que fosse. Esvazio a mente, deixando o frio silencioso apoderar-se. Nada mais me importava, desde que o fundo nunca chegasse, pois sabia que de lá eu teria esperanças de subir à margem novamente. Nada mais me importava, desde que para sempre flutuasse sem nada enxergar, nem mesmo a mais breve luz, a mais breve claridade. Nada mais me importava, desde que ali ficasse, sozinho, sem nunca mais arrastar ninguém àquele lugar.
Antes mesmo de afundar um único palmo, alva e fina mão segura-se em meu coração, e o puxa de volta à margem, à tona, à terra firme, carregando junto dele o resto inerte de meu corpo. Não luto, não me movo, não me desvio. As mãos, antes únicas, seguidas pelos braços, envolvem-me. Sufoco-me em nuvem de fios sedosos. Um úmido calor penetra meus ombros, enquanto unhas dilaceram carne e pele onde tocam. Por medo ou por raiva, não sei talvez os dois. Dor inexiste, apenas o vazio, o nada, apenas o pensamento de sempre tê-la ferido. Qual minha utilidade, que não poupá-la de sofrimento, e mesmo assim eu a fizera sofrer mais do que antes. Minha função reduzida à tortura, por afogar tão fundo o que ninguém além dela quis ver. Dei-lhe meu coração e chave, mas nunca quis que visse tal arremedo, mergulhado tão fundo, onde ninguém enxergaria minha mesquinhez, minha necessidade de ser indispensável.
Pálido sangue verte de meu pálido coração, enquanto ela acaricia cada pequena cicatriz, perguntando como fora feia, sem nunca levantar a voz. Não mais me cabia esconder, e proferi em voz alta tudo que sempre negara querer e existir. Afinal, não existem pessoas que se dignem a suportar um coração invejoso das relações alheias, sem nunca ser capaz de mudar.
Uma a uma minhas máscaras descem, esfaceladas e quebradiças pelo mergulho de cabeça no meu próprio desespero, na minha própria angústia. Um sorriso de glacê, a muito enferrujado, despedaça-se ao tocar novamente o gume. Em seus olhos, nada sou capaz de ver.
O poço negro se expande, cresce assustadoramente. Temo que me deixe, afinal, ela merece algo melhor.
Ardor surpreende minha face quando aquelas mãos, delicadas, acertam-na com toda força que aquele braço é capaz de arremeter. O que ela me diz, não sei dizer, e não cabe a mim contá-las.
Encerra-se aqui o show, pois dele não mais sei dizer.






Postar um comentário