essa poça
aquele degrau
e as formiguinhas
em que você não pisou
o muro riscado
e a grade antiga
claustro dos tantos
e alívio excludente
as casas, os prédios
e obras e canteiros
e as portas e paredes
e janelas e telhados
aquela foto
três por quatro
janelas com reflexo
sem reflexo também
a moça na janela
esperando alguém passar
e as moças sem janela
acendendo luzes vermelhas
o choro, o riso, o triunfo
e o arco do triunfo
a glória dos que passaram
todos passaram no final das contas
a música! todos os sons
os ruídos, as dissonâncias
e as harmonias, tudo que concorda
e a voz daquela pessoa
o quadro de arte contemporânea
com todas aquelas pinceladas incoerentes
e também o renascentista
que te lembra a sua mãe
e o seu pai
e aqueles amigos de infância
que tinham um péssimo humor
mas você nunca quis avisar
aquela núvem no céu
parece um capacete de moto
sem cor, sem pressa
sem estatística de acidentes
o lago que todos dizem ser azulado
e parece ser verde, ou não?
o oceano que vai até o fim do mundo
pra namorar a linha do horizonte
todas as montanhas
as verdes, as brancas e as azuladas
que parecem ser verdes
e a música do vento correndo
a chuva, o cheiro da chuva
o barulho da chuva, tão gostoso
mas cortante, como a música
do vento correndo
as pequenas coisas
e as grandes também
é tudo desprovido de sentido
é tudo desprovido de voz
porque o sentido é seu, e só seu
então aí vai o conselho humanista:
não se mate, por favor
porque se nada tem sentido
não vai fazer diferença nenhuma.






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