Himahimasei

Estações

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Ele observava de dentro do trem as estações, que passavam veloz, algumas reduziam a velocidade até parar, para depois recomeçarem a correr para o final do trem. Dessas estações, algumas ele decorou o nome, outras, nem viu passar, outras ainda passou um bom tempo parado, observando-as.
A primeira estação, lembrava-se bem, chamava-se матка (útero). Era quente, aconchegante, cheio de amor. Levando-se em conta todo o tempo que passaram dentro do trem, foi o tempo mais curto de todos. Rapidamente, aquela estação foi-se embora. Ele sabia que estava lá, mas nunca se lembraria de como era estar parado nela. Não se lembrava em nada das estações seguintes, que sua mãe um dia dissera-lhe com saudade. Passaram tempos juntos numa tal chamada детство (infância), da qual só se lembra poucas e espaçadas partes, algumas doloridas, outras divertidas, mas muito dispersas para poder se chamar estação.
Pouco tempo depois, levantou-se e foi caminhar no longo corredor. Suas pernas doíam de ficar sentado naquele banco por tanto tempo. Pediu licença aos passageiros da cabine, todos conhecidos de nome, endereço, telefone e coração, todos íntimos, já que dividiram tanto tempo em uma mesma cabine, que parecia estranhamente confortável à todos aqueles que entravam, mesmo que ninguém saísse com a mesma freqüência. Ou entravam e logo saíam, ou entravam e passavam boa parte do tempo ali, jogando conversa fora e observando algumas estações passarem. E quando partiam, ou era pra buscar alguém ou pra nunca mais voltar, deixando saudades em todos aqueles que ficavam. Desses, uns saíam de boa vontade, outros, indiferentes, e outros ainda lutavam, brigavam pra ficar, mas a hora de descer já chegara, e não mais podiam ficar no trem. Ele próprio, vejam só, fora confundido com outro passageiro, e quase expulso do trem antes da sua estação.
No corredor, encontrou crianças a correr desenfreadamente. Gritou para que não pulassem para outros vagões, pois era arriscado demais, e poderiam cair do trem e serem esmagadas pelas rodas. Assustadas, as crianças olharam para ele e voltaram às suas cabines, nas quais nunca ficavam muito tempo, até que não mais quisessem sair. Continuou caminhando e olhando dentro de outras cabines, como que em busca de alguém. Lá fora, a estação одиночество (solidão) acabara de passar, e agora entrava em uma outra, bem conhecida por outros que conviviam com ele em sua cabine, любовь (amor). O frio se desfez quando viu, em uma cabine bem próxima à dele (de fato, apenas 5 portinholas atrás da sua), um ser que lhe pareceu tão perfeito que era impossível resistir-lhe. Pouparei o leitor dos fatos que se seguem, mas ele a levou à sua cabine, se é que me entendem.
Essa estação durou até o final. Nunca chegou a tornar-se uma memória, pois sempre estava ali, para ser vista. Outras estações se juntaram à ela, transformando-a num terminal em certos pontos, tamanho número de estações que ali se encontravam. Ревность (ciúmes), воля(vontade), желание(desejo), todas lado a lado. друг(amigo) também foi uma das estações que ele mais viu passar, e onde entraram muitas pessoas em sua cabine. Nessas mesmas estações, ele viu sair alguns habitantes da sua cabine, mas esses apenas foram para suas próprias, nunca se esquecendo de mandar lembranças.
As piores estações foram a de nome потеря (perda). Nessas estações, viu sua mãe e seu pai descerem, tranquilamente, após entregar o bilhete ao funcionário e pegarem algumas poucas coisas no bagageiro. Ao sentir o trem partir, se desesperou, e quis ficar junto deles, ainda mais por descerem juntos. Aqueles que ficaram na cabine o seguraram, impedindo que se jogasse para fora do trem. Depois disso, alguns outros desceram nessa estação, em tempos diferentes, mas sempre levando consigo algo de dentro daquela cabine.
Depois de muito tempo viajando e vendo algumas estações velhas, poucas novas, ao longe, ele viu uma totalmente nova, com novas cores e um brilho estranho. Сын (Filho). Assustadoramente nova. Nela, embarcou um embrulho volumoso, mas pequeno. Assustou-se quando bateram à porta. Abriu, e viu um empregado do trem, carregando aquele pequeno embrulho, dizendo que era para ele. Lembra-se apenas de um pequeno rosto, antes de tudo ter ficado negro. Uma luz forte em seu olho, uma dor aguda na nuca. Levantou-se e viu sua esposa, carregando aquele pequeno embrulho. Levanta-se lentamente e vê aquele embrulho se mover. Acostuma-se a ele, dá-lhe um nome e segue, vendo-o crescer. Passou mais duas vezes pela mesma estação, antes que ela ficasse para trás. Agora, tudo corria mais rápido. Praticamente não dava tempo de ler os nomes das estações. Mas ele pouco se importava agora, as estações não mais lhe serviam, pois tudo que lhe era importante estava dentro de sua cabine. O trem desacelerou, e parou novamente em uma estação. Virou-se e viu o nome. потеря (perda). Quem? Quem seria dessa vez? Viu sua esposa se levantar lentamente, e seguir em direção à porta. Abriu-a e saiu, levando consigo boa parte da cabine. O que restara já estava dividido. Seus filhos levariam três quartos do restante, enquanto seus companheiros de cabine guardariam o resto. Nada fez para impedir a partida de sua esposa. Ele já sabia que aquilo aconteceria. Chorou copiosamente, abraçou os filhos, que também choravam, e chorou.
Novamente, o trem iniciou sua veloz corrida. Agora, seus filhos já se aventuravam em outras cabines, e agora, buscavam a sua própria. O trem corria, e novamente, parou. Levantou a cabeça e viu que era a sua. Não era se chamava потеря (perda), mas sim смерть (morte). Levantou-se e, sem dizer uma só palavra a ninguém, se retirou, deixando pra trás tudo de sua cabine, mas levando consigo uma pequena parte da cabine de todos aqueles que com ele dividiram a cabine...

Achei simples, direto... Não sei se vai agradar, mas, aí está. Sim, é intencional eu colocar blockquote em tudo. E não, não foi por causa do texto ao lado Estação

1 comentários:

Já comentei contigo meu parecer... acho, assim como meu último poema, que pode ser melhor explorado, digo, podemos desenvolvê-los mais... mas no seu caso, este pode se tornar antológico, como já o é, mas digo... um divisor de águas...

No mais curti demais e falei que algumas lágrimas se esboçaram no decorrer da leitura, certo?... E há tempos isso não acontecia ( desde "Através do Espelho" De J. Gardner).

Parabéns!...


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